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Castelo Branco ”Capital do Frio” ou exemplo de complementaridade de Empresas e Entidades em torno de um projecto vencedor.
I – CONSIDERAÇÕES INICIAIS (Testemunho pessoal)Na qualidade de técnico de refrigeração e cidadão tive o primeiro contacto com Castelo Branco nos fins da década de 70. Trabalhava em Lisboa numa empresa de Frio Industrial e fomos visitados pelo Sr. José Ribeiro Henriques da Centauro, que nos levou amostras de blocos alhetados produzidos em Portugal, por Portugueses e com tecnologia Portuguesa, o que foi um motivo de orgulho para mim enquanto Técnico Português formado numa Universidade Portuguesa.
Posteriormente fui trabalhar para o Porto, também numa empresa de Frio Industrial. Foi aqui que por razões profissionais me desloquei pela primeira vez a Castelo Branco para executar um trabalho na Prazol, no qual utilizámos equipamento produzido na Centauro. Seguiu-se o Matadouro de Alcains e por aí adiante... Até que fui convidado para vir trabalhar na Centauro pelo Sr. José Ribeiro Henriques e D. Elvira Henriques .
Quando penso no passado e no presente “dá-me luta” continuar a trabalhar em Castelo Branco, no sector de Refrigeração e cada vez se torna mais agradável para mim viver numa cidade bonita, limpa, organizada, apetecível e com futuro.
II – O GERMINAR DA CAPITAL DO FRIONão sendo natural de Castelo Branco talvez me seja mais fácil falar sobre o tema proposto “Castelo Branco Capital do Frio”
1 – Em Castelo Branco na década de 70 e salvo alguma incorrecção da minha parte por desconhecimento, tínhamos os Frigoríficos Hormigo.
2 – Posteriormente os “irmãos Filipe”, após regressar de Moçambique, criaram a “Iofil”, grandes utilizadores de Frio Industrial na área dos lacticínios / iogurtes.
3 – Simultaneamente o Sr. José Ribeiro Henriques e D. Elvira Henriques, empresários de Frio Comercial e Industrial em Moçambique (fabricantes einstaladores), descartaram várias ofertas de criação de uma Centauro no Brasil e em várias zonas do País! Optaram regressar às origens e contaram com a visão, vontade e coragem do Sr. José Castanheira e a dedicação e empenho de ex-colaboradores e clientes de Moçambique (Sr. António Soares, Sr. Alberto Antunes) para criar a Castanheira Henriques, vulgo Centauro.
4 – Posteriormente os Frigoríficos Paulo de Alcains deslocaram-se para Castelo Branco e criaram a Frinox. O mesmo aconteceu com os Frigoríficos Milheiros do Fundão.
5 – Com o “boom” do ar condicionado doméstico e industrial, em grande parte obra da FNAC, apareceram em Castelo Branco empresas instaladoras de ar condicionado doméstico. Foi por uma unha negra que não veio para Castelo Branco o único fabricante verdadeiramente nacional, a Ergotérmica liderada tecnicamente pelo distinto Técnico e Engenheiro Vaz Nunes. Não obstante, a Electroalbi, liderada pelo Sr. Filipe quis e soube ver para além do doméstico e preparou-se para a climatização industrial, não adormecendo nas facilidades FNAC. Mais tarde o Grupo Sousa Pedro formou uma sociedade em Castelo Branco a Ambistore, hoje liderada pelo Sr. Eng.º Teixeira e com uma nova vocação – fabrico de equipamento frigorífico especial para baixa temperatura. Apareceram vários instaladores de ar condicionado.
II – O DESENVOLVIMENTO DA CAPITAL DO FRIO Ao contrário do que é tipicamente português, ou seja, o que é lá de fora é melhor que o nacional, o que é de fora é melhor do que é da nossa zona, criou-se uma parceria / cumplicidade / aposta estratégica ou algo a que os especialistas destas coisas dão um qualquer nome “erudito”, mas que para mim classifico de “dinâmica para o desenvolvimento”.
1 – A Iofil apostou em utilizar tecnologia Portuguesa e técnicos Portugueses. A opção por produtos nacionais foi a consequência óbvia e a proximidade da Centauro fez o resto. O mesmo aconteceu com a Frinox, com o matadouro de Alcains, com as instalações frigorificas para queijo, presunto, tabaco, fruta e produtos carnicos no nosso Distrito.
2 – Foi assim que começou a germinar o que é hoje Castelo Branco em termos de frio Industrial. As grandes Empresas, já referidas, utilizadoras de frio, contactaram instaladores portugueses de todo o país para construírem as suas infra-estruturas frigorificas. A Centauro, entre outros, quis e soube aproveitar este “boom do frio” para disponibilizar no mercado o melhor compromisso possível Qualidade / Flexibilidade / Fiabilidade / Serviço / Preço. Os mesmos instaladores que vieram a Castelo Branco passaram a “importar” produtos Centauro para o resto do país, à semelhança do que acontecia com os equipamentos dos colegas Hormigo e Frinox.
3 – A Centauro lançou os seus produtos para exportação na INTERCLIMA – Paris (1981) e começou a exportar, para o Reino Unido, em 1984.
IV - DINÂMICA PARA O DESENVOLVIMENTO1 – Venham agora certos “intelectuais” destas coisas falar de bairrismos, nacionalismos ou regionalismos fora de moda! É pena que eles não olhem para além do “paraíso de Bruxelas e dos fundos sem fundo que vêm de lá” e não tenham a humildade de entender como na prática funcionam estas coisas em Espanha, França, na Holanda, ou na Alemanha, por exemplo. Em França Lyon é a Capital do Frio.
2 – Todo e qualquer valor ou sentimento tipo nacionalismo, regionalismo ou bairrismo tem o lado bom e o lado mau! O lado mau é a sua utilização pela negativa, pela inveja, pela destruição do quintal do vizinho! O lado bom é a sua utilização numa óptica de parceria e complementaridade pela positiva de Empresas, Associações, Entidades Oficiais, Pessoas e Tradição, por forma a criar riqueza e desenvolvimento numa determinada zona, numa óptica de respeito mas também de concorrência inteligente e saudável entre zonas ou distritos que apostam no desenvolvimento. Ao referir inteligente e saudável significa encontrar nichos de oportunidades, avalia-los e desenvolvê-los.
3 – Salvaguardando os bons “resultados pessoais” de muitos que viram a integração na UE como oportunidade de se servirem e não de servir Portugal e consequentemente a União Europeia, veja-se a que levou a subserviência, o ser bom aluno da UE em termos do nosso país! Na minha opinião, no mercado global cada Empresa, Associação, Concelho ou País vence pelo valor acrescentado da sua individualidade, sustentada pela sua competitividade e não pela sua subserviência e colagem estéril à dinâmica dos outros! V – IMPLEMENTAÇÃO PARA A DINÂMICA DO DESENVOLVIMENTOComo na vida, como nas Empresas a boa oportunidade não nos bate à porta muitas vezes e quando bate temos que agarrá-la com força e sacrifício.
1 – Sem recorrer a consultores estrangeiros, pagos a peso de ouro pelo erário público, a CMCB quis e soube inquietar-se com as preocupações da industria em Castelo Branco e em particular com a dinâmica e projecção a nível nacional e internacional do Sector do Frio e Climatização em Castelo Branco.
2 – A C.M.C.B., contra tudo e contra todos que preferiam ver Castelo Branco como uma calma e isolada cidade do interior, soube coordenar vontades e lançar o Bairro Industrial. Contra ventos e tempestades criou condições para que a Cablesa se instalasse em Castelo Branco dando visibilidade à cidade enquanto polo industrial de e com futuro.
3 – Paralelamente manteve “porta aberta” para apoiar moral e logísticamente os Empresários da cidade que se debatiam com problemas impensáveis para as novas gerações.
a) Simplesmente faltava a água no Verão, em Castelo Branco, e a electricidade lá ia faltando... b) O telefone era de manivela e tínhamos que pedir aos CTT as chamadas. Bom havia telex... c) As matérias primas importadas passavam em Castelo Branco, iam para Lisboa para desalfandegar e voltavam para Castelo Branco. d) Os grandes importadores bloqueavam em Lisboa o acesso aos boletins de importação de que a industria nacional necessitava para produzir. e) Não havia hotéis ou pensões com ar condicionado ou mini bar para receber clientes. f) Por carro estávamos a ± 6 horas de Lisboa e um pouco mais do Porto, por estradas de “rally”, etc., etc., etc.
2 – Da referida visibilidade de Castelo Branco, resultado de uma acção concentrada entre Empresas, Associações, Entidades e Câmara Municipal começaram a sair resultados:
a) A nossa Associação Nercab, pela mão do Sr. Luís Filipe, Dr.ª Paula Rafael e Eng.º Benjamim Rafael aceitaram o desafio da Centauro e superiormente organizaram o 1º Congresso Nacional de Frio. b) A nossa Pensão Arraiana remodelou-se e passou a ter quartos com ar condicionado e mini bar. Só muito depois apareceram os Hotéis. c) Enquanto grande cliente da Bitzer Alemanha a Centauro deu os primeiros passos e a Câmara Municipal concretizou o convite ao Senhor Peter Schauffler para abrir, já lá vão 15 anos, uma fábrica de compressores frigoríficos no nosso Bairro Industrial. d) Atenta aos comentários dos intervenientes do Sector de Refrigeração na área de transportes frigoríficos, a Centauro abordou o ISQ na pessoa do Sr. Eng.º Frazão e a C. M. C. B. à semelhança do que havia feito com a Bitzer e com uma “dinâmica verdadeiramente empresarial” e não “estatal”, contribuiu fortemente para o aparecimento em Castelo Branco do primeiro laboratório para testes, homologações /certificações de transportes frigoríficos, sendo que na Península Ibérica só existia um em Madrid.
Isto permitiu aos industriais nacionais evoluírem mais depressa e reduzir os custos e dificuldades, directos e indirectos, de quando só tinham Espanha como opção.
e) Foi por uma unha negra que não tivemos a instalação na nossa cidade de mais uma fábrica de compressores e de uma fábrica de motoventiladores. VI – O PRESENTE1 – Actualmente Castelo Branco é conhecida como cidade industrial, graças às empresas que exportam os seus produtos e serviços para todo ou estão ligados a grupos transnacionais, entre outros: - Danone
- Delphy
- Dielmar
- Bitzer
- Arox
- HMR
- Frinox
- Centauro
2 – Na área do Frio e Climatização, a Bitzer, enquanto Empresa espalhada pelos cinco continentes, veio dar a visibilidade à “capital do frio” que a Cablesa deu à cidade, no que é acompanhada pela Centauro que exporta fundamentalmente os seus produtos para a Europa, África e América Latina.
3 – É com orgulho que em Feiras do sector nos Estados Unidos, Alemanha, França, Itália, Holanda, Reino Unido, Irlanda, Bélgica, Rússia, Ucrânia, Roménia, Polónia, vejo aparecer a “Capital do Frio de Portugal – Castelo Branco” associada directa ou indirectamente a produtos Bitzer, Centauro, e indirectamente os produtos Arneg, Mercatus, Jordão Cooling Systems, Frilixa, Mafirol, Friconde, Gonfrio, entre outros
4 – É com orgulho, enquanto técnico de frio português que vejo a Bitzer inaugurar a produção do seu mais recente compressor alternativo - OCTAGON em Castelo Branco, juntado para o efeito todos os Directores das suas Fabricas e Filiais no mundo.
5 – É com satisfação que vejo a Centauro comemorar o seu 25º Aniversário com a presença de mais de 300 empresas do sector, portuguesas e estrangeiras, desde os Estados Unidos à Noruega, organizando simultaneamente jornadas técnicas com apresentação do que há de mais evoluído para o futuro próximo do sector.
6 – É com satisfação que vejo a C.M.C.B. a desafiar pela positiva as forças vivas do Concelho e a dar visibilidade ao mesmo com o evento “Desafios do Futuro”. VIII – O FUTURO 1 - É com fundadas expectativas que constato que a C.M.C.B., na pessoa do Sr. Joaquim Morão aposta no relançamento da Indústria em Castelo Branco, após requalificar o tecido urbano para melhorar a qualidade de vida na cidade, tornando-a mais atractiva e competitiva neste vectorimportante de um desenvolvimento sustentado.
2 – A nossa Associação Empresarial Nercab está fortemente envolvida neste relançamento e na dinamização pela positiva da actividade Empresarial.
3 – Aparecem novas indústrias no sector do Frio como a Ambistore (vertente fabrico) ou a Castelo Frio (vertente fabrico). Noutros sectores vão aparecendo também algumas empresas, esperando que a atribuição de lotes e posterior apoio institucional e logístico não falte, por forma a atrair mais Empresários. Fala-se da vinda para Castelo Branco de um fabricante de AVAC e outro de motoventiladores.
4 – Na vertente Ensino em geral e na área da Refrigeração e Climatização em particular, graças a um desafio do Presidente da C.M.C.B feito às Escolas e Instituto Politécnico, houve uma abertura temporária à realidade do sector, embora receie que a enormidade de fundos disponibilizados para a investigação crie condições para as Escolas se fecharem, de novo, ao mundo exterior.
Foi interessante participar em discussões sobre o ensino da Refrigeração com o Instituto Politécnico de Castelo Branco e fazer-lhes sentir e interiorizar que o Frio e a Industria Alimentar e até actividades agrárias estão interligados (dei o exemplo do Chile) e que se há cidades em Portugal para lançar uma especialização ou uma pós graduação em frio, Castelo Branco pode ser uma delas.
5 – Na vertente formação profissional poder-se-íam criar áreas especificas ligadas ao que falta de facto à sociedade e à indústria, em vez de se ver a formação profissional como uma forma encapotada de “diminuir o desemprego” e infelizmente enriquecer alguns formadores que deveriam, isso sim, ser formandos e durante bastante tempo. É duro, mas é a realidade.
6 – A nível das Empresas e dos seus quadros falta também formação adequada, pragmática e de qualidade, porque já lá vai o tempo em que a baixa produtividade era culpa só dos operários! Gerir Direcções, Departamentos, Secções mais do que Arte deve ser o resultado de formação adequada.
Ser Técnico é muito mais que ter um canudo ou receber a papinha feita de uma qualquer Empresa. Ser Técnico é saber criar, evoluir e desenvolver novas soluções. Para tal é precisa formação técnica específica o que obriga Ensino e Empresas a colaborar no delinear cursos médios e superiores adequados às necessidades do País e as Escolas a acabar com cursos estéreis e sem saída profissional. As escolas têm que produzir a baixo custo produtos de qualidade, leia-se técnicos nas mais variadas áreas, vendáveis no seu mercado alvo. Só assim podem satisfazer as expectativas dos seus clientes – as Empresas / as Instituições.
IX – COMO CONSTRUIR O FUTURO1 – Em termos gerais, não se pode construir o futuro sem conhecer o passado e reflectir no presente, objectivo primeiro e último desta minha intervenção sobre a “Capital do Frio”.
2 – Para construir algo há que avaliar a viabilidade técnica, económica e pesar os prós e os contras antes de avançar. Só os fundos que eventualmente se irão receber não são de todo factor de sucesso.
3 – Como juntar à volta de um projecto entidades e valências tão diferentes como o Poder Central / Poder Local / Empresas/ Associações / Escolas/ Centro de Formação / Sindicatos e forças vivas da cidade, Concelho e Distrito?
Na minha opinião tudo isto se resolve com “logística a sério” ou melhor com uma “estratégia partilhada”!
O primeiro passo deve ser a criação de uma “forum de debate” em que se crie espaço e condições para discutir os desafios do presente e do futuro, em conjunto e não em grupos restritos, elitistas e detentores de informação “privilegiada”.
Uma boa relação institucional e uma parceria para o desenvolvimento entre Entidades oficiais, Instituições, Associações e Empresas é fundamental para relançar o futuro.
4 – No que respeita ao ensino do Frio e Climatização em Castelo Branco, acredito sinceramente que muito se poderia vir a fazer em termos de racionalização e complementaridade de meios disponíveis a nível do Ensino (Empresas, Instituto Politécnico, Centros de Formação e se necessário valências específicas da Universidade de Coimbra ou UBI, por exemplo).
A nível de pós graduação ou até cursos, por certo que um aluno que durante o seu curso passe por uma Bitzer, uma Frinox, uma Castelo Frio, uma Centauro, uma Electroalbi, um laboratório ISQ, por uma manutenção na Danone ou no Hospital, terá muito mais aceitação no mercado que outro aluno tipo “rato de gabinete no bom sentido”. Temos Engenharias a mais e técnicos a menos, temos “técnicos especialistas” a mais e técnicos práticos a menos!
5 – A nível de fixação de Empresas um gabinete cidade ou um “Clube do empresário” enquanto local adequado ao convívio e discussão informal da vida das nossas Empresas e Instituições poderia criar condições para atrair mais Empresários e ajudar a C.M.C.B a dinamizar esta vertente do desenvolvimento num âmbito mais alargado de crescimento sustentado e racionalizado da actividade económica em Castelo Branco.
6 – A Associação Empresarial Nercab poderia funcionar como entidade congregadora e operacional de primeira linha na criação de condições logísticas, uma vez que a sua desejável equidistância a instituições, empresas e Partidos políticos poderia ser um forte ponto de apoio à acção da C.M.C.B na promoção e desenvolvimento sustentado do Concelho.
7 – O que não podemos ter, como acontece na pesada máquina do Estado, é duplicidade de meios, guerrinhas entre ministérios, instituições ou agências. A isto chama-se mudar pela positiva a cultura empresarial e a cultura das pessoas, aqui sim usando pelo lado bom, com elevação e pragmatismo valores complementares como regionalismo / nação / individualismo / parceria / desenvolvimento / tradição.
Na minha opinião o que aconteceu em Castelo Branco e no Sector Frio em particular é o exemplo acabado do que pode resultar de uma convergência de esforços de Entidades, Empresas e cidadãos, quando devidamente interiorizada e aplicada nas áreas com potencial em detrimento de outras que por qualquer razão deixaram de estar encaixadas na lógica do desenvolvimento (cursos técnicos, produtos, empresas, formação profissional, instituições, entre outras).
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António Granjeia
Maio 2004, Centauro 25 Anos
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